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Sergio Carriel
SUICÍDIO
Quando pensei que poderia escolher como morreria, tinha uma única exigência: Teria que ser quente. Uma grande cama fofa onde meus ossos e músculos, tão velhos, pudessem esquecer deles mesmos, para sempre. Ou num jirau que fosse, mas debaixo de um teto. É muito triste morrer ao relento. A alma levaria o frio da hora derradeira para onde fosse, tornando-se irritadiça e perigosa. Neste tempo era só um menino. Acreditava em almas, céus e infernos. Tentei me matar porque amava a professora de Português. Masquei uma folha de comigo-ninguém-pode. Disseram que matava instantaneamente, mas só cozinhou os meus aparelhos respiratórios e digestivos.
Depois pensei que tinha nenhuma opção. Estava escrito. Morreria. Era a única certeza. Como, se já não importava. Só pedia para que não doesse. Que não fosse demorado e trabalhoso para todos os envolvidos. Em duas ocasiões tomei caixas de calmantes e emagrecedores, mas pedi socorro na última hora. Era como se bichos andassem debaixo de toda a minha pele. Além do que, lavagem estomacal é muito humilhante. E além do terrível olhar de culpa cristã da minha mãe.
Aos quarenta e tantos anos, não tento mais o suicídio. Já que a última experiência foi determinante para que eu escolhesse viver. Passei vinte e um dias sem comer, dormindo o que a rua permitia, sem banho, sem conversa, querendo morrer como se fosse ninguém. Meu corpo já não respondia, mas a vida era avassaladora nele, e principalmente no meu querer. Sou muito forte fisicamente, e suicídio não combina comigo. O que ainda não realizei foi a escrita da carta-despedida perfeita. Ao meu ver, a melhor parte do suicídio, ou a mais bonita. Só não seria se eu fosse escritor japonês, cometesse harakiri e me chamasse Mishima.
Escrito por Chico Ribas às 17h04
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